O autor aponta para a necessidade de relativizar a proposta do texto,
pois o mesmo é fruto de uma “tentativa para apresentar o balanço de um
conjunto de pesquisas sobre o simbolismo numa situação escolar
particular…”( p. 7 ) ele fala do cuidado que se deve ter ao aplicar
idéias oriundas de um dado contexto cultural a outros, apontando para as
suas implicações: riscos de ingenuidade e simplificação, além de
inconvenientes. Entretanto, ele fala de algo que está em toda parte e é
ignorado: o poder simbólico.
“… o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode
ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe
estão sujeitos ou mesmo o exercem.” ( p. 8 )
Bourdieu cita os neo-kantianos e o tratamento dado por eles aos
diferentes universos simbólicos: mito, língua, arte, ciência. Para eles,
cada um desses instrumentos constitui-se num instrumento cognoscente e
de construção do mundo objetivo. Ele faz referência a Durkheim e à sua
tentativa de elaborar ciência, sem empirismo e apriorismo, como o
primeiro passo na inauguração de uma “sociologia das formas simbólicas.”
“Nesta tradição idealista, a objetividade do sentido do mundo define-se
pela concordância das subjetividades estruturantes (senso = consenso).”
(p. 8 )
Segundo ele, a análise estrutural seria capaz de analisar a apreensão de
cada uma das “formas simbólicas”, a partir do isolamento da estrutura
imanente a cada produção simbólica, privilegiando as estruturas
estruturadas. Para ilustrar, ele cita o lingüista Ferdinand Saussure,
fundador desta tradição, e a representação que ele faz da língua:
“… sistema estruturado, a língua é fundamentalmente tratada como
condição de inteligibilidade da palavra, como intermediário estruturado
que se deve construir para se explicar a relação constante entre som e
sentido.” ( p. 9 )
A eficácia dos sistemas só é possível, porque eles próprios são
estruturados. O poder simbólico constrói a realidade e estabelece uma
ordem gnosiológica.
“… o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe
aquilo que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer, ‘uma
concepção homogênea do tempo, do espaço, do número, da causa, que torna
possível a concordância entre as inteligências.” (p. 9 )
Segundo Bourdieu, Durkheim afirma que a função social do simbolismo é política, não se realizando a função de comunicação.
“Os símbolos são instrumentos por excelência da ‘integração social’:
enquanto instrumentos do conhecimento e de comunicação (cf. a análise
durkheimiana da festa), eles tornam possível o consensus acerca do
sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução
da ordem social: a integração ‘ilógica’ é a condição da integração
‘moral’.” (p. 10 )
Bourdieu cita a ênfase nas funções políticas que os “sistemas simbólicos
têm, em detrimento da sua função gnosiológica. Os símbolos seriam
produzidos para servir à classe dominante.
“As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente
apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como
interesses universais, comuns ao conjunto do grupo (…) Este efeito
ideológico, produz-lo a cultura dominante dissimulando a função de
divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário da
comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e
que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como
subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura
dominante.” (p. 11)
As relações de comunicação são, para Bourdieu, relações de poder
determinadas pelo poder material ou simbólico acumulado pelos agentes
envolvidos nas relações. Os “sistemas simbólicos” atuam como
instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento e
asseguram a dominação de uma classe sobre outra a partir de
instrumentos de imposição da legitimação, “domesticando” os dominados.
“O campo de produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre
as classes: é ao servirem os seus interesses na luta interna do campo de
produção (e só nesta medida) que os produtores servem aos interesses
dos grupos exteriores do campo de produção.” (p. 12)
A luta de classes fica retratada na teoria de Bourdieu como uma luta
pelo domínio do poder simbólico, que é travada nos conflitos simbólicos
cotidianos. Esta luta se dá também a partir do embate travado entre os
especialistas da produção simbólica legítima:
“… poder de impor – e mesmo de inculcar – instrumentos de conhecimento e
de expressão (taxionomias) arbitrários – embora ignorados como tais – a
da realidade social.” (p. 12)
Os “sistemas simbólicos” são produzidos e apropriados pelo próprio
grupo, ou por um corpo de especialistas que conduz à retirada dos
instrumentos de produção simbólica dos membros do grupo. Como exemplo,
Bourdieu cita a história da transformação do mito em religião.
“As ideologias devem a sua estrutura e as funções mais específicas às
condições sociais da sua produção e da sua circulação, quer dizer, às
funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para os especialistas em
concorrência pelo monopólio da competência considerada (religiosa,
artística etc) e, em segundo lugar e por acréscimo, para os
não-especialistas.” (p. 13)
As ideologias, segundo Bourdieu, são determinadas pelos interesses de
classe e pelos interesses específicos daqueles que a produzem e pela
lógica específica do campo de produção.
“A função propriamente ideológica do campo de produção ideológica
realiza-se de uma maneira quase automática, na base da homologia de
estrutura entre o campo de produção ideológica e o campo de luta de
classes. A homologia entre os dois campos faz com que as lutas por
aquilo que está especificamente em jogo no campo autônomo produzam
automaticamente formas eufemizadas das lutas econômicas e políticas
entre as classes.’ (p. 14)
O ideológico aparece então como taxionomias políticas, filosóficas,
religiosas, jurídicas etc. que demonstram legitimidade “natural”, dado
que não reconhecidas.
“O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de
fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo
e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto mundo, poder quase mágico
que permite o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou
econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se
for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.” (p. 14)
“O reconhecimento do poder simbólico só se dá “na condição de se
descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das
diferentes espécies de capital em capital simbólico e, em especial, o
trabalho de dissimulação e de transfiguração (numa palavra, de
eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das relações
de força fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas encerram
objetivamente e transformando-as assim em poder simbólico, capaz de
produzir efeitos reais sem dispêndio aparente de energia.” (p. 15)
Zelinda Barros (http://zelindabarros.blogspot.com/)
13ª turma - Mestrado em Educação - UFMA
Compartilhando saberes
A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento. "
Platãoquinta-feira, 1 de novembro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
Claude Lévi-strauss
Claude Lévi-Strauss
28/11/1908, Bruxelas, Bélgica.
01/11/2009, Paris, França.
01/11/2009, Paris, França.
Viagens ao Brasil central, relatadas em Tristes Trópicos, deram fama a Claude Lévi-Strauss
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Um dos grandes pensadores do século 20, Lévi-Strauss tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.
De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.
Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.
O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.
O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".
Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas lingüísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.
Lévi-Strauss não vê o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.
Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.
Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado, porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".
De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.
Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.
O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.
O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".
Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas lingüísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.
Lévi-Strauss não vê o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.
Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.
Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado, porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Paulo Freire e sua história
Paulo Reglus Neves Freire nasceu no dia 19 de setembro de 1921, no Recife, Pernambuco, uma das regiões mais pobres do país, onde logo cedo pôde experimentar as dificuldades de sobrevivência das classes populares. Trabalhou inicialmente no SESI (Serviço Social da Indústria) e no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife. Ele foi quase tudo o que deve ser como educador, de professor de escola a criador de idéias e "métodos"
Sua filosofia educacional expressou-se primeiramente em 1958 na sua tese de concurso para a universidade do Recife, e, mais tarde, como professor de História e Filosofia da Educação daquela Universidade, bem como em suas primeiras experiências de alfabetização como a de Angicos, Rio Grande do Norte, em 1963.
A coragem de pôr em prática um autêntico trabalho de educação que identifica a alfabetização com um processo de conscientização, capacitando o oprimido tanto para a aquisição dos instrumentos de leitura e escrita quanto para a sua libertação fez dele um dos primeiros brasileiros a serem exilados.
Em 1969, trabalhou como professor na Universidade de Harvard, em estreita colaboração com numerosos grupos engajados em novas experiências educacionais tanto em zonas rurais quanto urbanas. Durante os 10 anos seguintes, foi Consultor Especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra (Suíça). Nesse período, deu consultoria educacional junto a vários governos do Terceiro Mundo, principalmente na África. Em 1980, depois de 16 anos de exílio, retornou ao Brasil para "reaprender" seu país. Lecionou na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em 1989, tornou-se Secretário de Educação no Município de São Paulo, maior cidade do Brasil. Durante seu mandato, fez um grande esforço na implementação de movimentos de alfabetização, de revisão curricular e empenhou-se na recuperação salarial dos professores.
A metodologia por ele desenvolvida foi muito utilizada no Brasil em campanhas de alfabetização e, por isso, ele foi acusado de subverter a ordem instituída, sendo preso após o Golpe Militar de 1964. Depois de 72 dias de reclusão, foi convencido a deixar o país. Exilou-se primeiro no Chile, onde, encontrando um clima social e político favorável ao desenvolvimento de suas teses, desenvolveu, durante 5 anos, trabalhos em programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (ICIRA). Foi aí que escreveu a sua principal obra: Pedagogia do oprimido.
Em Paulo Freire, conviveram sempre presente senso de humor e a não menos constante indignação contra todo tipo de injustiça. Casou-se, em 1944, com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira, com quem teve cinco filhos. Após a morte de sua primeira esposa, casou-se com Ana Maria Araújo Freire, uma ex-aluna.
Paulo Freire é autor de muitas obras. Entre elas: Educação: prática da liberdade (1967), Pedagogia do oprimido (1968), Cartas à Guiné-Bissau (1975), Pedagogia da esperança (1992) À sombra desta mangueira (1995).
Foi reconhecido mundialmente pela sua práxis educativa através de numerosas homenagens. Além de ter seu nome adotado por muitas instituições, é cidadão honorário de várias cidades no Brasil e no exterior.
A Paulo Freire foi outorgado o título de doutor Honoris Causa por vinte e sete universidades. Por seus trabalhos na área educacional, recebeu, entre outros, os seguintes prêmios: "Prêmio Rei Balduíno para o Desenvolvimento" (Bélgica, 1980); "Prêmio UNESCO da Educação para a Paz" (1986) e "Prêmio Andres Bello" da Organização dos Estados Americanos, como Educador do Continentes (1992). No dia 10 de abril de 1997, lançou seu último livro, intitulado "Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa". Paulo Freire faleceu no dia 2 de maio de 1997 em São Paulo, vítima de um infarto agudo do miocárdio.
Fonte: http://pensadoresdaeducacaoana.blogspot.com.br/2007/09/paulo-freire-biografia.html
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