A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento. "

Platão

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Pedagogo da Essencia

Foto da pintura representando São Tomás de Aquino
São Tomás de Aquino
* Campânia, Itália – 1224 d.C
+ Fossa Nova, Itália – 1264 d.C
“Se a felicidade humana é o fim da nossa atividade, ela só pode ser alcançada através de nossos atos. Esses atos nos levam, direta ou indiretamente, ao fim almejado. E a razão é o meio de que dispõe o homem para alcançar esse fim.” Tomas de Aquino, in “Suma Contra Gentiles”, c. 104.
A moral tomista é uma moral sem obrigação, uma moral sem sanções. Repele o legalismo kantiano ou escotista para permanecer com a filosofia do ser evolutivo sobre a base de Deus; e quanto às sanções, não conta com “recompensas” extrínsecas, mas com o resultado de uma evolução normal, dentro e sob a garantia de uma ordem que sabemos ser da divindade.
“Onde quer que se estabeleça uma ordem de finalidade bem determinada, é de necessidade que a ordem instituída conduza ao fim proposto e que o afastar-se dela implique já o privar-se de tal fim. Pois, o que é em razão de um fim, recebe sua necessidade desse mesmo fim; e um vez posto, salvo o caso de força maior, o fim é conseguido”.
* * * * *
Nasceu Tomás de Aquino, no castelo de Roccasecca, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue a família imperial e as famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade.
Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, salvo a ciência.
Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família, mas Tomás de Aquino triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris 1245 d.C a 1248 d.C., e depois em Colônia.
Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor, a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino.
Adquire plena consciência dos poderes da razão, e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia.
Assim, converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico, mas também o pensamento patrístico, que culminou com Tomás de Aquino, rico de elementos helenistas e neoplatônicos, além do patrimônio de revelação judaico-cristã, bem mais importante.
Para Tomás de Aquino, porém, converge diretamente o pensamento helênico, na sistematização imponente de Aristóteles.
O pensamento de Aristóteles, pois, chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados, especialmente árabes.
Também Alberto, filho da nobre família de duques de Bollstädt, 1207 d.C. a 1280 d.C., abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana.
Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou teologia na universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem.
O Tomismo
É como é chamado o sistema filosófico de Tomás de Aquino e que se tornou também um sistema teológico incorporado à doutrina da igreja católica. Baseia-se, o tomismo, no princípio de que entre razão e fé, mesmo com as distinções existentes, há uma estreita colaboração entre ambos.
Segundo a filosofia teológica do tomismo a razão pode demonstrar algumas verdades da fé, como a existênciae a unicidade de Deus. Também pode explicar o mistério da fé por meio de imagens e metáforas. Serve o tomismo para responder às objeções dos ateus.
A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados – ciências naturais, filosofia, teologia, exegese, ascética.
Em 1252 Tomás de Aquino voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269, quando regressou a Itália, chamado a corte papal.
Em 1269 foi de novo a universidade de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante; em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Faleceu no mosteiro de Fossanova, aos quarenta e nove anos de idade.
* * * * *
Os frades não mentem
Santo Thomaz de Aquino provocava os escolásticos de seu tempo com o refrigério da razão, demonstrando ser possível à Igreja valer-se dos ensinamentos de Aristóteles. Quase respondeu aos tribunais da Inquisição, mas livrou-se pela inteligência. No mosteiro, eram poucos os frades que conseguiam acompanhá-lo. Certa feita resolveram vingar-se.
Durante uma refeição, levantaram-se subitamente, foram à janela e avisaram: “Venha ver, Thomaz, um boi voando!”.
Foi, e enfrentou tremendas gargalhadas. Perguntaram-lhe como podia acreditar que um boi voava. Era o mesmo que acreditar no acoplamento de Aristóteles com a Igreja. Resposta que calou todo mundo: “Eu só não acredito, mesmo, que frades possam mentir…”.

Diversamente de Santo Agostinho, e em harmonia com o pensamento aristotélico, Tomás de Aquino considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética, para resolver o problema do mundo. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia, – não oposta – visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado, o da filosofia evidente e racional. A gnosiologia tomista – diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica – é empírica e racional, sem inatismos e iluminações divinas.
O conhecimento humano tem dois momentos, sensível e intelectual, e o segundo pressupõe o primeiro.
O conhecimento sensível do objeto, que está fora de nós, realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível.
Esta é a impressão, a imagem, a forma do objeto material na alma, isto é, o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera, sem a materialidade do sinete; a cor do ouro percebido pelo olho, sem a materialidade do ouro.
O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível, mas transcende-o.
O intelecto vê em a natureza das coisas – intus legit – mais profundamente do que os sentidos, sobre os quais exerce a sua atividade.
Na espécie sensível – que representa o objeto material na sua individualidade, temporalidade, espacialidade, etc., mas sem a matéria – o inteligível, o universal, a essência das coisas é contida apenas implicitamente, potencialmente.
Para que tal inteligível se torne explícito, atual, é preciso extraí-lo, abstraí-lo, isto é, desindividualizá-lo das condições materiais.
Tem-se, deste modo, a espécie inteligível, representando precisamente o elemento essencial, a forma universal das coisas.
Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível, é mister um intelecto agente que abstraia, desmaterialize, desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível.
Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma, mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo; no entanto, é absolutamente desprovido de conteúdo ideal, sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano.
E, ademais, é uma faculdade da alma individual, e não noa advém de fora, como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta.
O intelecto que propriamente entende o inteligível, a essência, a idéia, feita explícita, desindividualizada pelo intelecto agente, é o intelecto passivo, a que pertencem as operações racionais humanas: conceber, julgar, raciocinar, elaborar as ciências até a filosofia.
Como no conhecimento sensível, a coisa sentida e o sujeito que sente, formam uma unidade mediante a espécie sensível, do mesmo modo e ainda mais perfeitamente, acontece no conhecimento intelectual, mediante a espécie inteligível, entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece.
Compreendendo as coisas, o espírito se torna todas as coisas, possui em si, tem em si mesmo imanentes todas as coisas, compreendendo-lhes as essências, as formas. É preciso claramente salientar que, na filosofia de Tomás de Aquino, a espécie inteligível não é a coisa entendida, quer dizer, a representação da coisa (id quod intelligitur), pois, neste caso, conheceríamos não as coisas, mas os conhecimentos das coisas, acabando, destarte, no fenomenismo.
Mas, a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é, logo, id quo intelligitur).
E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento, que nos garante conhecermos coisas e não idéias; mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens, e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro.
O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo, e é justificado experimentalmente e racionalmente.
A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto, mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas, que contêm um elemento inteligível, a essência, a forma, a idéia. O sinal pelo qual a verdade se manifesta a nossa mente, é a evidência; e, visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes, intuitivos, tornam-se verdadeiros quando levados a evidência mediante a demonstração.
Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes, intuitivos, e, por conseqüência, todos os conhecimentos sensíveis são, por si, verdadeiros.Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis, devidas ao intelecto.
Pelo contrário, no campo intelectual, poucos são os nossos conhecimentos evidentes. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade, contradição, etc.).
Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos a evidência mediante a demonstração, como já dissemos.
É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro, consistindo em uma falsa passagem na demonstração, e levando, destarte, a discrepância entre o intelecto e as coisas.
A demonstração é um processo dedutivo, isto é, uma passagem necessária do universal para o particular.
No entanto, os universais, os conceitos, as idéias, não são inatas na mente humana, como pretendia o agostinianismo, e nem sequer são inatas suas relações lógicas, mas se tiram fundamentalmente da experiência, mediante a indução, que colhe a essência das coisas.
A ciência tem como objeto esta essência das coisas, universal e necessária.

Fonte:  http://www.biografia.inf.br/santo-tomas-de-aquino-filosofo.html

terça-feira, 3 de abril de 2012

Uma analise do "Discurso do espírito positivo"


Anotações sobre o "Discurso sobre o espírito positivo"

Os comentários postados aqui integram as reflexões desenvolvidas no âmbito de um grupo de estudos chamado "Estudos comtianos", cujos trabalhos principiaram com o "Discurso sobre o espírito positivo". Como sempre, comentários e observações são bem-vindos.

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I. PALAVRAS INICIAIS
Escrever ou falar sobre Augusto Comte nos dias de hoje é um problema; ou melhor, é um conjunto de problemas. O primeiro deles refere-se à definição da palavra “positivismo” – não no sentido que Augusto Comte dava à palavra (“real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático”, como se vê nas páginas iniciais do Apelo aos conservadores), mas em um sentido mais básico e ao mesmo tempo mais amplo: a qual positivismo referimo-nos quando falamos em Positivismo? Essa não é uma pergunta vã nem simples – mas, em todo caso, já tratamos dela em outras ocasiões e não nos ocuparemos dela neste momento.
Essa dificuldade inicial, todavia, pode fornecer uma boa indicação de quais os outros problemas relacionados à discussão atual sobre o Positivismo, que podem ser sintetizadas na seguinte questão: qual o sentido de estudar a obra de Comte nos dias de hoje? Para que serve o Positivismo? Novamente, essas questões não são vãs nem são simples de serem respondidas; mesmo para os positivistas ortodoxos – ainda os há! – às vezes elas são difíceis de responder.
Uma primeira forma de responder à questão acima é por meio da via histórica: estudar Augusto Comte é importante porque ele foi uma etapa fundamental no pensamento ocidental, consolidando a Filosofia da Ciência de sua época, afirmando a primazia da ciência sobre outras formas de conhecimento, fundando a Sociologia e, secundariamente, com algumas questões episódicas e anedóticas, como a Religião da Humanidade (de tão duradouros efeitos no Brasil). Nesse sentido, estudar Comte é tão importante quanto estudar, por exemplo, Aristóteles ou Tomás de Aquino ou Marx. No fundo, é uma forma degradante de justificar a importância de um pensador, percebendo-o apenas como uma peça de um museu de idéias – e peças de museus servem para serem vistas, às vezes citadas, mas não são de fato vitais para nossa reflexão (exceção feita, é claro, às obras artísticas).
A verdadeira questão que exige uma resposta é: de que forma Augusto Comte permite uma reflexão interessante, estimulante, criativa, inovadora sobre a realidade contemporânea? Ou, de maneira mais simples e mais direta: até que ponto Augusto Comte auxilia nossa compreensão de nossa sociedade?
Novamente, a resposta “histórica” permite uma primeira forma de encarar a questão acima: Comte faz parte da história da disciplina sociológica, das Ciências Sociais de modo geral, e refletir sobre suas idéias, seus métodos e suas doutrinas, com seus pontos positivos e seus limites, auxilia a reflexão sobre a sociedade e sobre a Sociologia. Porém, Raymond Aron incluiu o barão de Montesquieu entre os fundadores da Sociologia e podemos com legitimidade perguntar-nos até que ponto esse pensador iluminista colabora na nossa reflexão atual. Por outro lado, surge um outro problema, ao mesmo tempo teórico e metodológico: podemos simplesmente transpor para os dias contemporâneos as discussões de Montesquieu? A erudição é sempre uma razoável justificativa para estudarmos um pensador, mas, como argumentou no início de sua carreira Quentin Skinner (a partir da obra do filósofo idealista inglês Robin Collingwood), cada época tem suas próprias questões e suas respostas específicas. Assim como sentimos que o aristocrata do Ancien Régime é de um mundo diverso do nosso, uma dúvida semelhante pode surgir a respeito de Augusto Comte.
O problema que enfrentamos ao estudar Comte, portanto, não é simplesmente o de sermos eruditos em sua obra; não é simplesmente saber em que página, escrita em que ano, está tal ou qual citação, dita por vez primeira ou segunda. Esses problemas são fundamentais para a compreensão da lógica do pensamento comtiano, mas temos que fazer justiça a esse pensador e responder (tentar responder, pelo menos) com clareza e convicção a questão fundamental: afinal de contas, para que serve o estudo dos inúmeros volumes escritos por Comte, a maior parte dos quais em língua francesa, em edições raras e redigidas em estilo denso?
A obra de Comte serve para muitas coisas, muito além da mera erudição (que, aliás, em si era desprezada por ele) ou da história das idéias filosóficas. Talvez, em primeiro lugar, devamos indicar com clareza: o mundo de Comte não é o nosso (por exemplo, escrevo em um laptop, em um ambiente cercado por energia elétrica, ao passo que as reflexões do filósofo do Montpellier tinham lugar escritas com pena e à luz de velas), mas também não é radicalmente outro. Na verdade, se lermos com atenção sua obra ao invés de prestarmos atenção a aspectos que, embora em si sejam importantes, acabam sendo superficiais sob outros aspectos, podemos dizer com segurança que o nosso mundo é exatamente o dele: sociedade científica, industrial, tendente ao pacificismo, carente de orientação espiritual (“religiosa”); mesmo problemas supostamente atualíssimos como a globalização integram o escopo das reflexões comtianas. Mesmo – talvez acima de tudo – um dos problemas fundamentais do Positivismo, revelado pela fórmula “Ordem e Progresso”, continua atual, embora o campo da “Ordem” há muito tenha medo de apresentar-se e supostamente o “Progresso” seja o vitorioso. Questões referentes às relações entre os sentimentos, a inteligência e a conduta prática; problemas de regulação da inteligência e da ciência; o desenvolvimento das nações pobres face à riqueza das nações ricas; as relações entre as classes sociais e as culturas e as civilizações diversas: tudo isso está em Comte e está nas pautas atuais.
Os comentários acima são bastante sumários e exigem observações adicionais; a impressão que tenho é que há a necessidade de afirmarmos com maior clareza a importância de Comte, talvez mesmo sua atualidade. De qualquer forma, há uma série de discussões acadêmicas atuais que permitem avaliar até que ponto Augusto Comte “cabe” nos dias atuais – ou, talvez, até que ponto as modalidades de pensamento e de ação utilizadas e por ele propostas são atuais. Estudo presentemente duas grandes questões a respeito:
  1. metodologias e teorias de pesquisa em História das Idéias e, derivadamente, em Teoria Política historicamente informada (ora, não foi exatamente esse o projeto de Comte?!). Em particular, um autor cujas pesquisas são úteis nesse esforço é o francês Pierre Rosanvallon, com uma disciplina acadêmica denominada “História Conceitual (ou Filosófica) do Político” e que propõe que as discussões realizadas 100, 150 ou 200 anos atrás não podem ser jogadas fora – desperdiçadas, no fim – pois constituem propostas e idéias que importam para a nossa conjuntura histórica (claro, para a grande conjuntura histórica)[1].
  2. O papel dos “intelectuais” no século XXI. A figura do “intelectual” surgiu em 1898, com o panfleto J'accuse, de Émile Zola, e desde então tem passado por diversas vicissitudes e revisões (desde 2002 fala-se até em “o silêncio dos intelectuais”), mas não resta dúvida de que o Sacerdote da Humanidade ou o representante do poder Espiritual positivista deve ser um “intelectual”: alguém devotado às coisas do espírito que intervém politicamente, embora sem ocupar cargos políticos, de poder, e preferencialmente sem se filiar a partidos políticos[2].
Ambas as discussões são “acadêmicas”, mas procuram esclarecer a importância do pensamento de Comte, suas possibilidades e condições; em outras palavras, pode contribuir para a doutrina, em termos teóricos e práticos.
Por outro lado, esse trabalho não deixa de ser preliminar ao que realmente interessa. E o que interessa? A inserção do Positivismo nos debates acadêmicos e políticos de nosso tempo, do Brasil e do mundo. É importante ter claro o seguinte, a esse respeito: os vários conhecimentos que se exigem para essa inserção – da doutrina, dos movimentos positivistas, das discussões políticas e acadêmicas contemporâneas – são apenas preliminares e cabe aos positivistas definir como participarão de quais debates e de quais problemas, mobilizando quais recursos e usando quais argumentos. Em suma, não há como fugir da nossa responsabilidade pessoal em termos de criatividade e de percepção do que consideramos bom ou mal, justo ou injusto, certo ou errado, belo ou feio. Augusto Comte escreveu muito, dando orientações a respeito de um sem-número de questões, mas jamais quis que seus discípulos abrissem mão de suas próprias cabeças, de suas próprias capacidades de reflexão. A repetição mecânica das palavras de nosso Mestre, além de tornar incompreensíveis essas mesmas palavras (devido às mudanças de estilo, de questões e de palavras), pode apenas nos condenar à obsolescência política e intelectual (como, de fato, já o fez): para evitarmos e superarmos essa situação, temos que assumir nossas próprias criatividades e nossos “sensos críticos”[3].


[1] Outros autores, com suas respectivas metodologias, que podem ser úteis são Quentin Skinner e a Escola de Cambridge (ou o “Contextualismo Lingüístico”) e Koselleck e sua “História dos Conceitos”. Entre as abordagens mais recentes na História das Idéias (e que são aceitáveis e/ou utilizáveis) há uma quarta corrente, que é a de Mark Bevir e seu “Individualismo Procedimental” (ou “Intencionalismo Fraco”), mas cujo valor não sei ainda como avaliar. Finalmente, é importante destacar que cada uma delas tem seus pontos positivos e suas limitações; feitas as contas, o mais útil para meus propósitos é, de fato, Rosanvallon.
[2] Há uma grande literatura a respeito dos “intelectuais”, tanto no Brasil quanto no exterior, devido aos problemas políticos do século XX em cada país e em todos em conjunto. A expressão “silêncio dos intelectuais” ganhou notoriedade no Brasil a partir do criminoso silêncio da intelectualidade de esquerda a propósito dos chamados “desvios éticos” do governo Lula (2003-...), mas pode ser traçada desde antes, a respeito de conjunturas específicas. Essa discussão, se bem aproveitada, pode ser bastante proveitosa para o Positivismo.
[3] Caso essa ação inovadora não se realize, seremos os positivistas, no máximo, glosadores de Comte e exímios comentadores e comparadores de autores – com a inevitável e frustrante conclusão reiterada de que Comte é melhor que os outros, com quem se o compara. O exercício de comparação é importante, mas, como sabemos, é na melhor das hipóteses secundário e não tem grandes resultados teóricos ou práticos.